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Carla & Leonel

Caminho Inglês – A Rota Silenciosa que vem do Mar

Maio de 2026. Há caminhos que se fazem com os pés, e há caminhos que se fazem com a memória antiga de um continente inteiro. O Caminho Inglês, esta rota breve, íntima e profundamente atlântica, pertence às duas categorias. Durante séculos, foi a porta de entrada dos peregrinos vindos do norte da Europa, sobretudo das Ilhas Britânicas e da Escandinávia, que chegavam por mar às costas galegas para seguir rumo ao túmulo do Apóstolo Santiago.

Caminho Inglês

A história regista que já no século XII esta peregrinação marítima estava firmemente estabelecida. Em 1147, uma esquadra de ingleses, alemães e flamengos visitou Santiago antes de seguir para a Terra Santa, parte dela ajudaria até na conquista de Lisboa, ao lado de D. Afonso Henriques.  

Mais tarde, durante a Guerra dos Cem Anos, os britânicos continuaram a usar o mar como via segura para chegar à Galiza, deixando vestígios arqueológicos — cerâmicas, moedas — encontrados nas escavações da catedral compostelana.

Mas a história também conhece silêncios: com a rutura de Henrique VIII com Roma, a peregrinação inglesa caiu no esquecimento durante séculos, até renascer no nosso tempo, agora procurada por quem deseja um caminho mais solitário, introspetivo e profundamente natural. O Caminho Inglês é, hoje, uma alternativa para quem deseja evitar a massificação do Caminho Francês ou do Caminho Português.

Caminho Inglês

As paisagens alternam entre o azul atlântico, bosques húmidos, aldeias de pedra, igrejas românicas e campos verdes que parecem não ter pressa. É um caminho que se faz devagar, porque a própria Galiza convida ao ritmo lento.

Ao longo da rota, o peregrino encontra testemunhos da antiga peregrinação marítima: igrejas como Santiago e Santa Maria, na Corunha, ou o Hospital da Caridade, em Ferrol, que acolhiam os viajantes exaustos.  

Há também vestígios de antigos hospitais de peregrinos e rotas medievais que sobreviveram ao tempo. Cada aldeia oferece um pedaço da alma galega: pão fresco, queijos, o aroma a eucalipto, o sotaque cantado, a hospitalidade discreta.

Caminho Inglês

Os últimos quilómetros são sempre emocionantes. Atravessar o casco histórico de Santiago, ouvir o eco dos passos nas ruas de pedra, ver a catedral surgir, imensa, dourada, quase viva, é um momento que nenhum peregrino esquece.

O Caminho Inglês, apesar de curto, condensa a essência do espírito jacobeu: a mistura de aventura, fé, história e descoberta interior. É um caminho que vem do mar, mas que termina dentro de cada um. São inúmeras as motivações que nos empurram para o Caminho: a fé que move montanhas, as promessas sussurradas em silêncio, a vontade de viver novas experiências, o desafio físico, o prazer do convívio ou, simplesmente, a necessidade íntima de partir. Uma constelação de razões, todas legítimas que, de uma forma ou de outra, acabam por convergir na mesma direção: Santiago.

E porque cada peregrino trilha o seu próprio Caminho, o nosso relato não pretende ser mais do que isso, um guia possível, uma mão estendida a quem se prepara para esta aventura breve, mas profundamente recompensadora, que é o Caminho Inglês.

No nosso caso, a motivação surge de uma força silenciosa: a necessidade profunda de partir. De nos afastarmos um pouco para ver melhor, de reencontrarmos o ritmo interior que tantas vezes se perde no ruído dos dias. Este relato nasce desse impulso, no fundo, pretende ser um companheiro de viagem possível.

Aqui, ficam registadas as emoções que nos atravessaram, as reflexões que o Caminho nos devolveu e as pessoas com quem nos cruzamos, cada uma deixando uma marca discreta, mas indelével.

Se estas palavras puderem ajudar outros peregrinos, ou simples caminhantes, a preparar esta aventura breve, mas intensamente recompensadora, que é o Caminho Inglês, então já terão cumprido o seu propósito.

 

Dois portos, um destino

O Caminho Inglês tem duas portas de entrada: Ferrol, com cerca de 112–120 km até Santiago, e A Coruña, com aproximadamente 73–75 km.
Ambas as rotas convergem em Bruma, já no interior verdejante da Galiza, para seguir juntas os últimos quilómetros até Compostela.

Caminho Inglês

Para obter a Compostela — o certificado de peregrinação — é necessário percorrer pelo menos 100 km a pé. Por isso, a rota de Ferrol tornou‑se a mais popular entre os peregrinos contemporâneos.

 

As etapas: um caminho breve, mas intenso

Caminho Inglês

O Caminho Inglês desde Ferrol costuma dividir‑se em seis dias, cada um com a sua personalidade:

  • Etapa 1: Ferrol – Neda (15 km): Uma entrada suave pela costa, com vistas marítimas.
  • Etapa 2: Neda – Pontedeume (16 km): O primeiro contacto com a Galiza profunda.
  • Etapa 3: Pontedeume – Betanzos (21 km): Sobe e desce por bosques e vales, terminando numa das vilas medievais mais belas da região.
  • Etapa 4: Betanzos – Hospital de Bruma (24 km): A etapa mais exigente, marcada por trilhos rurais e silêncio absoluto.
  • Etapa 5: Hospital de Bruma – Sigüeiro (24 km): O interior galego em estado puro, com aldeias dispersas e campos húmidos. A etapa mais bonita, na nossa opinião e também uma das mais fáceis.
  • Etapa 6: Sigüeiro – Santiago de Compostela (16 km): A aproximação final, onde a emoção cresce a cada passo.

 

Etapa 1: Ferrol – Neda (15 km)

Caminho Inglês

O Caminho Inglês começa junto à marina de Ferrol. Chegámos de véspera para começar bem cedo. Ficámos no Albergue de Peregrinos de Ferrol. Ter em atenção que para pernoitar nos albergues de peregrinos é necessário ser portador da Credencial do Peregrino, a qual pode ser encomendada na Internet.

Caminho Inglês

“À nossa espera”, o surpreendente Eduardo, Edu, como gostava de ser chamado, uma personagem inconfundível, misteriosa, surpreendente. Acompanhou-nos durante quase todo o Caminho. Não nos chegámos a despedir formalmente, mas foi muito interessante ter por companhia alguém que nos lembrou que a vida é para ser vivida leve, em tranquilidade, sem anseios. Alguém com sorriso fácil e sempre pronto para ajudar. Alguém que brincou, conversou, e que caminhava apenas com o essencial. Dele, sabemos, que tinha nascido em Madrid e que, atualmente, vivia em Valência. O resto foi-nos mostrando ao longo do percurso.

Caminho Inglês

Oito da manhã. Aqui, os dias começam cedo. O início do Caminho encontra-se assinalado por um marco inconfundível que indica o ponto de partida. Se houver dúvidas sobre a sua localização, basta procurar a cafetaria Sarga: o marco ergue‑se praticamente em frente. Vale também a pena entrar na Oficina de Turismo, o nosso familiar Posto de Turismo, situada mesmo ao lado. Aqui, pode-se esclarecer qualquer questão que ainda persista e, já agora, carimbar a credencial com os primeiros registos da jornada. Lembrem‑se da regra: dois carimbos por dia para que, no final, seja concedida a tão desejada Compostela.

Caminho Inglês

A etapa entre Ferrol e Neda é de uma suavidade quase inesperada. O percurso mantém‑se praticamente plano desde os primeiros passos dentro da cidade, atravessando depois a zona industrial e avançando sem grandes sobressaltos até ao município de Neda, onde termina esta primeira jornada.

Pouco antes de chegar ao Paseo Maritimo Do Xuvia Neda, ao km 101, existe a opção de seguir o trajeto normal, ou ir pelo complementar. O normal fez-nos mais sentido.

Caminho Inglês

Nesta etapa, e relativamente a pontos de abastecimento (água, supermercados ou cafés) não existe qualquer problema.

 

Albergue de Peregrinos de Neda

Caminho Inglês

O Albergue de Peregrinos de Neda, um dos primeiros criados especificamente para o Caminho Inglês, recebe o caminhante à entrada da vila, junto à foz do Rio Xubia, num ambiente verde e sereno que suaviza o final da etapa. Trata‑se de um albergue, simples e funcional, com 26 lugares no total: 24 em beliches numa grande sala comum e 2 camas adicionais num quarto adaptado para pessoas com mobilidade reduzida, com um custo de 10€/ pessoa.

Inaugurado em 2002, mantém o espírito clássico dos albergues tradicionais, oferecendo o essencial, cozinha com micro-ondas, lavandaria com máquina de lavar e secar, aquecimento, Wi‑Fi e um pequeno jardim voltado para as marismas, zonas húmidas costeiras onde a água do mar se mistura com a água doce dos rios, formando áreas alagadiças ricas em biodiversidade, um ambiente tranquilo e acolhedor.

Não esquecer que em todos os albergues públicos, as camas são atribuídas por ordem de chegada e mediante apresentação da credencial.

Quando chegámos, já o Edu socializava com todos os peregrinos. Rasgou um grande sorriso quando nos viu, um sorriso de continuidade, iríamos trilhar o Caminho juntos.

De entre os caminhantes, conhecemos duas mulheres, mãe e filha, dos Países Baixos. Também de sorriso fácil, apenas a língua se mostrava uma barreira, pequena, por sinal. O Edu ia fazendo a tradução da conversa que, quase sempre, convergia para a nossa jovialidade aparente. As pessoas surpreendiam-se e nós retribuíamos com mais um sorriso, aquele gesto universal que unifica povos.

O Edu resolveu apelidar-nos de “Mister e Miss Portugal Sénior”, uma expressão que caminhou connosco durante todo o percurso. Quase todo….

 

Etapa 2: Neda – Pontedeume (16 km)

Esta etapa é uma das mais harmoniosas e variadas do Caminho Inglês, combinando história, aldeias tranquilas, zonas industriais, trechos rurais e a aproximação gradual à Ría de Ares.

Logo à saída de Neda, cruzámos o Rio Belelle e subimos suavemente pelas ruas antigas, passando pela Torre do Relógio e pelos vestígios do antigo Hospital de Peregrinos do Sancti Spiritus, testemunhos vivos da importância medieval desta vila. A partir daqui o Caminho desceu novamente em direção à ría e avançou por pequenos núcleos como Regueiro, Puntal de Arriba e Conces, até entrar em Fene, município marcado pela presença histórica dos estaleiros ASTANO, cuja enorme grua moldou durante décadas a paisagem industrial da zona

Depois de atravessar o centro urbano de Fene, onde há cafés, supermercados e serviços úteis ao peregrino, o percurso segue para o Caminho Real, contorna o parque empresarial de Vilar do Colo e aproxima‑se de Cabanas, já com o aroma do mar a anunciar a proximidade do destino.

A chegada a Pontedeume fez‑se atravessando a ponte sobre o Rio Eume, outrora uma das mais longas da Europa medieval, e entrando na vila fundada por Afonso X em 1270, marcada pela presença imponente da Torre dos Andrade e por um centro histórico cheio de vida

Caminho Inglês

É uma etapa considerada fácil, com apenas uma subida mais pronunciada à saída de Neda e um percurso acessível para todos os ritmos.

 

Albergue de Peregrinos de Pontedeume

Caminho Inglês

O Albergue de Pontedeume encontra-se junto à marginal, depois de atravessar a ponte à direita. Antes de nos deslocarmos ao albergue, deve-se passar pela Oficina de Turismo, local onde se efetua a reserva e o pagamento. Caso surja alguma dúvida, embora não seja um local difícil de identificar, procurar, entre os prédios, a Torreón dos Andrade, a torre medieval que domina a zona, é precisamente aí que funciona a Oficina de Turismo. O albergue fica nas traseiras da torre. O espaço dispõe de 20 camas e tem um custo de 6,10€/ pessoa.

Como seria de esperar, o Edu já se encontrava no albergue, sempre disponível para fornecer todas as informações locais. Neste dia, conhecemos uma mulher checa que caminhava sozinha. Dela, soubemos apenas que conhecia Portugal e que, inclusive, já tinha caminhado no nosso país. Dormiu, silenciosamente, na cama superior do meu beliche (Carla), ainda que o mesmo rangesse sem parar.

 

Etapa 3: Pontedeume – Betanzos (21 km)

Retomando o Caminho, esta etapa inicia‑se com uma subida exigente logo à saída de Pontedeume. São cerca de 1,9 km que testam a determinação de qualquer peregrino. Vale a pena dosear o esforço, encontrar um ritmo confortável e parar sempre que o corpo o pedir, pois o Caminho também se faz de escuta.

Caminho Inglês

Uma coisa é garantida. A partir deste ponto, todas as etapas revestem-se de uma beleza tal que o reforço dos superlativos, é justo.

A vila de Miño rapidamente se revela paragem obrigatória no Caminho Inglês. Aqui, é sensato abastecer, descansar um pouco e aproveitar para subir ao miradouro metálico situado junto à estrada, já na saída da localidade, por cima da linha de caminho‑de‑ferro. A vista compensa cada passo: a praia estende‑se como pano de fundo e lembra ao peregrino que, neste Caminho, o mar nunca fica verdadeiramente longe.

De Miño a Betanzos são cerca de 11 km tranquilos, sem grandes complicações. Ainda assim, o percurso não dispensa um pequeno carrossel de subidas e descidas até à entrada de Betanzos, onde a chegada se faz, uma vez mais, atravessando o rio.

Caminho Inglês

Nesta etapa e, no que diz respeito a pontos de abastecimento, não se existem dificuldades, o que significa que se encontra, facilmente, água e alimentos.

Numa das nossas paragens para reconfortar o estômago, num lugar muito bonito e com um bar repleto de iguarias, conhecemos um senhor de 76 anos oriundo da Califórnia. Trocamos algumas palavras e, dele, ficámos a saber que está habituado a percorrer o mundo sozinho, sendo que nunca está sozinho. Disse-nos que no fim do Caminho iria visitar um amigo português que tinha conhecido num outro Caminho e que depois seguia para os Açores. O Caminho também é isto, é encontrar amigos para a vida.

Com a chegada a Betanzos torna-se imperativo explorar a cidade. Aliás, deve-se aproveitar, depois de descansar um pouco, para conhecer melhor as vilas e cidades onde se pernoita, cada uma tem o seu encanto próprio e uma vida que vale a pena sentir.

 

Albergue de Peregrinos de Betanzos

Caminho Inglês

O Albergue de Peregrinos de Betanzos encontra-se instalado na histórica Casa da Pescadería, e é considerado um dos alojamentos mais acolhedores e bem cuidados de todo o Caminho Inglês, com cozinha equipada (micro-ondas), lavandaria, aquecimento, duches confortáveis e espaços comuns que convidam ao descanso e à partilha de histórias de caminho. A limpeza, o ambiente tranquilo e a localização privilegiada fazem dele uma verdadeira “base de luxo” antes da longa etapa até Hospital de Bruma.

Situado em pleno centro histórico, a poucos passos da igreja de Santa María do Azougue e das ruas estreitas e medievais que definem a alma da vila, oferece 35 camas distribuídas por dormitórios amplos e luminosos, totalmente restaurados em 2013 para receber peregrinos sem perder o caráter do edifício antigo, com um custo de 10€/ pessoa.

Mais uma vez, já o Edu recebia calorosamente os peregrinos estafados à chegada ao albergue. O seu simpático cumprimento enchia a nossa alma e sossegava-nos. Aqui, instalou-se um grupo de peregrinos portugueses, barulhentos e ruidosos, como seria de esperar. Sem despertar a nossa curiosidade, deixámo-nos ficar pela cama a descansar o corpo, pois a mente tinha recuperado durante o Caminho.

Nesta tarde, a chuva também decidiu aparecer em abundância, transformando-se num convite ao descanso. Com o final do dia, o Edu veio desejar uma boa noite antes de dormir. Gestos simples, mas ao mesmo tempo intensos. Memórias que perdurarão pela vida fora. Do outro lado da parede, também já repousava o senhor americano que tínhamos conhecido durante o percurso deste dia.

 

Etapa 4: Betanzos – Hospital de Bruma (24 km)

Para nós, a etapa mais exigente, marcada por trilhos rurais e silêncio absoluto. Os 24 km que separam Betanzos de Hospital de Bruma são, para muitos, o primeiro grande teste do Caminho Inglês, debaixo de chuva, torna-se ainda mais intenso.

Esta etapa foi, recentemente, reestruturada e ligeiramente encurtada, mas continua a ser exigente. A dificuldade não está apenas na distância, reside sobretudo nos constantes desníveis que obrigam a alternar entre subidas firmes e descidas prolongadas. Para agravar o desafio, o primeiro bar só aparece por volta do quilómetro 8, um lembrete de que, nesta jornada, a autonomia é tão importante quanto o passo seguro, sendo, por isso necessário levar provisões desde Betanzos porque não existem supermercados durante toda a etapa, nem no final.

Este bar constitui, portanto, uma paragem obrigatória, nomeadamente, para saborear uma tostada com mantequilla e marmelada, acompanhada de café com leite e sumo de laranja, pequenos prazeres. Nestas paragens, gosto (Carla) de observar um pouco melhor as pessoas, e perceber quem são os peregrinos do Caminho, imaginando as motivações por detrás. Na mesa ao lado, um jovem de aparência de leste caminhava sozinho, sempre muito comprometido consigo mesmo. Haveríamos de o reencontrar no albergue da última noite.

Lá fora, chovia a cântaros, os peregrinos ajeitam-se com o que tinham ao dispor para não se molharem. Por vezes, torna-se necessário ajudar os mais idosos a colocarem as suas capas para se abrigarem da chuva. A senhora escocesa jamais se esquecerá a minha ajuda (Leonel) para vestir a sua capa.

Ao quilómetro 15, existe um parque de merendas, junto a um lago, a altura ideal para descansar um pouco e comer algo, pois só ao km 21 é que há outro bar, Casa Avelina, outro local de paragem obrigatória.

O albergue de Hospital de Bruma, ao quilómetro 24, surge nesta etapa como um verdadeiro oásis depois de tantas subidas e descidas. Para além das poucas casas da aldeia, existe apenas um único restaurante na localidade, a Casa Graña, onde um caldo galego reconforta até a alma mais cansada.

Para além do albergue e deste restaurante, pouco mais existe em Hospital de Bruma, é um lugar mínimo, silencioso, quase suspenso, onde o peregrino percebe que o Caminho também se faz de simplicidade e de vazio.

 

Albergue de Peregrinos de Hospital de Bruma

Caminho Inglês

O Albergue de Hospital de Bruma tem um ambiente muito particular, quase suspenso no tempo. Depois de uma etapa longa e exigente, chegar aqui é como entrar num silêncio espesso, onde o cansaço se instala, mas também uma estranha serenidade.

O edifício, simples e funcional, acolhe o peregrino com o essencial, nada mais, nada menos, e talvez seja precisamente essa ausência de distrações que torna o lugar tão marcante. À volta, o vazio domina, poucas casas, quase ninguém na rua, apenas o som distante do vento a atravessar os campos. É um isolamento que não oprime, pelo contrário, convida à introspeção.

Em Bruma, o Caminho parece encolher até ao essencial: o corpo cansado, a mochila pousada, o silêncio, e a consciência clara de que, aqui, estamos verdadeiramente no meio de coisa nenhuma e que isso, por si só, também faz parte da peregrinação.

O albergue oferece uma pequena cozinha e 22 camas distribuídas por dois dormitórios com um custo de 10€/ pessoa. O exterior conta com um pequeno espaço onde estão instaladas as casas de banho, a lavandaria, sendo também o local onde os peregrinos descansam as pernas depois da etapa mais dura do Caminho Inglês.

O Edu já se encontrava a vaguear pelo pequeno albergue. Sempre repleto de alegria, com aquele entusiasmo que o caracteriza, já tinha acolhido quase todos os peregrinos. Neste dia, fomos dos últimos a chegar, logo após a chegada de um casal espanhol com quem pouco falamos, mas que sempre nos sorria à passagem.

Lembrar ainda a senhora escocesa da capa da chuva, que pernoitou vários dias no mesmo albergue em que ficámos. Nesta noite, a cama inferior do beliche (Carla) serviu-lhe na perfeição. Ao lado, no beliche (Leonel), na cama inferior, mais um português havia se juntado ao grupo. Era de Vila Franca de Xira, não sabemos o seu nome. Gostava de conversar, parecia cansado e isso refletia-se no seu sono. Vocês percebem. Aliás, preparem-se para esta realidade, pois é uma constante ao longo do Caminho.

Curiosamente, foi em Hospital de Bruma que dormi (Carla) melhor em todo o Caminho, e vai‑se lá entender porquê, logo ali, no albergue mais simples de todos. Talvez tenha sido o silêncio absoluto, talvez o cansaço acumulado, talvez a humildade do espaço que não promete nada e, ainda assim, oferece tudo o que importa. As paredes nuas, as camas alinhadas sem pretensão, o cheiro a campo que entra pelas janelas… tudo conspirou para uma noite de descanso profundo, quase primitivo, como se o corpo finalmente tivesse encontrado o lugar certo para pousar. Há albergues mais modernos, mais confortáveis, mais equipados, mas nenhum me acolheu como este. E é interessante perceber que, às vezes, é na simplicidade que o Caminho nos abraça com mais força. Foi aqui que fechei os olhos para dormir e senti uma serenidade, uma paz interior indescritível. Há coisas e situações incríveis na vida que nos elevam.

 

Etapa 5: Hospital de Bruma – Sigüeiro (24 km)

Esta etapa apresenta-se como o exemplo mais notório do interior galego em estado puro, com aldeias dispersas e campos húmidos. Para nós, a etapa mais bonita e também uma das mais fáceis.

Caminho Inglês

A quarta e penúltima etapa do Caminho Inglês conta cerca de 24 km e decorre sem grandes dificuldades. Logo após deixarmos Hospital de Bruma, a cerca de 3 km, surge a primeira paragem obrigatória: San Pedro de Ardemil.  Aqui, o bar Uzal é o lugar ideal para o primeiro café do dia e para apreciar as esculturas peculiares que ladeiam a estrada e dão um toque inesperado a este troço do percurso.

Caminho Inglês

O caminho até Sigüeiro, já no concelho de Oroso, desenrola‑se por um mosaico de alcatrão, terra batida e trilhos florestais que tornam esta etapa particularmente agradável. Depois das duas jornadas anteriores, mais exigentes, este troço funciona quase como uma descompressão: o corpo agradece e a mente respira. A aproximação final faz‑se por um longo estradão de terra que acompanha a autoestrada e conduz diretamente ao parque industrial de Sigüeiro, antes de desembocar no centro desta vila pequena, mas surpreendentemente acolhedora, onde não faltam cafés, restaurantes, supermercados e lojas.

 

Albergue Segue o Camiño

Nesta cidade, como não existem albergues públicos, recorremos a um albergue privado, o Albergue Segue o Camiño, o qual deverá ser reservado com antecedência.

Este albergue, é daqueles lugares que surpreendem pela forma como combinam conforto, modernidade e um acolhimento quase familiar. Depois de dias de trilhos, silêncio rural e alojamentos mais espartanos, entrar aqui é como abrir a porta para um pequeno refúgio pensado ao detalhe para quem vem a pé. Os dormitórios são amplos, limpos e luminosos, com camas sólidas e roupa impecável, e há uma sensação imediata de ordem e cuidado que o corpo agradece. Tudo isto pelo valor de 24€/ pessoa com pequeno almoço.

As zonas comuns, cozinha e sala de estar, convidam ao descanso sem pressas, e a simpatia de quem gere o espaço faz-nos sentir mais hóspedes do que peregrinos de passagem. A localização, a poucos minutos do centro de Sigüeiro, permite abastecer, jantar bem e preparar com calma a derradeira etapa até Santiago, um lugar onde o peregrino respira fundo e sente que está, finalmente, muito perto do fim.

Tudo muito bem, tudo muito confortável, mas……. Faltava o Edu. Não estava aqui para nos receber com aquele sorriso ao qual já nos tínhamos habituado. Em que albergue teria ficado? Neste momento receámos que Hospital de Bruma tivesse sido a despedida, ainda que não o soubéssemos. Ansiávamos vê-lo, nem que fosse, por momentos e, por uma última vez no dia seguinte em Santiago……

O português de Vila Franca de Xira do dia anterior também estava neste albergue, desta feita, no beliche ao lado, não longe o suficiente para proporcionar uma noite tranquila, sem os ruídos de quem dorme profundamente, quase que alheado da realidade onde está.

A acrescentar à falta que sentimos do Edu neste albergue, juntaram-se as baixas energias do grupo de portugueses ruidosos de outras paragens e de duas amigas espanholas repletas de coisas, diga-se, com uma mala gigante, do tamanho das baixas vibrações que emanavam, principalmente de uma delas, a que tinha um olhar que atravessava o corpo, como se estivesse a avaliá-los, a absorvê-los, a medir intenções invisíveis. Uma espécie de nuvem baixa, silenciosa, como se carregasse mais peso na alma do que na mala.

Uma presença escusada que viríamos a encontrar no dia seguinte e de quem urge afastar a passos largos. O Caminho tem destas coisas: aproxima uns, afasta outros, e ensina‑nos a reconhecer, quase instintivamente, quem acrescenta e quem drena.

 

Etapa 6: Sigüeiro – Santiago de Compostela (16 km)

Os últimos 16 km do Caminho Inglês são quase uma marcha de consagração. Logo após deixar Sigüeiro, o percurso afasta‑se da estrada principal e conduz‑nos por caminhos secundários onde o silêncio e a segurança voltam a ser companhia.

Aqui, a atenção às setas amarelas torna‑se crucial. O trajeto alterna entre alcatrão secundário e trechos de floresta, criando um ritmo suave que prepara o espírito para a chegada a Santiago.

A certa altura, deparámo-nos com um novo grupo de portugueses, uma família de quatro, mãe, pai, filha e genro, parecia ser. Eram de Vieira do Minho e acompanharam-nos durante alguns minutos numa conversa muito animada, até chegarmos ao último bar do Caminho.

Aqui, começaram as primeiras despedidas, tímidas, envergonhadas, quase disfarçadas entre goles de água e cafés apressados. Era como se todos percebêssemos, ao mesmo tempo, que o Caminho estava a chegar ao fim e que aquela mesa, aquele balcão, aquele último refúgio antes de Santiago, era o ponto onde as histórias partilhadas começavam a separar‑se. Havia abraços que não se davam, palavras que não se diziam, mas que pairavam no ar com a mesma força de uma despedida dita em voz alta. E foi aqui, neste bar sem pretensão, que o Caminho nos ensinou que o fim começa sempre devagar, num olhar, num sorriso, num “até amanhã” que já não será amanhã.

Saí (Carla) em lágrimas daquele lugar. Não eram lágrimas de tristeza, nem sequer de alegria pura, eram um misto impossível de traduzir, como se todo o Caminho tivesse decidido desaguar aqui, naquele instante. Havia algo neste bar, neste adeus silencioso, nesta consciência súbita de que o fim estava tão perto, que me atravessou por dentro sem pedir licença. As pessoas com quem tinha partilhado passos, silêncios, dores e risos começaram a dispersar, cada uma seguindo o seu ritmo, e senti, pela primeira vez, que a viagem não era eterna. Chorei porque estava grata, porque estava cansada, porque estava viva e porque sabia que, dali para a frente, cada quilómetro seria uma despedida lenta, inevitável, do Caminho e de tudo o que ele me tinha dado.

Um pouco à frente, surgiu o chamado “bosque encantado”, um recanto inesperado, de uma beleza tranquila, um lugar misterioso, antes dos passos finais rumo à catedral.

Depois de atravessarmos a zona industrial de Santiago, há um instante quase mágico em que os nossos olhos, cansados, mas atentos, se enchem finalmente com a visão da Catedral. Surge ao longe, imponente, como se estivesse à nossa espera desde o primeiro passo dado em Ferrol.

Depois… bem. Depois temos a Catedral. E sobre isso, não escrevemos mais. Há momentos que pertencem apenas a quem os vive e esses ficaram connosco.

Não mais vimos o Edu. O último contacto chegou, ainda neste dia pela tarde, via WhatsApp e dizia: “Buen Camiño”….

 

Informação Útil

APP Gronze: Inclui todo o percurso, com mapa e informação sobre os diversos serviços e todos os aspetos ao longo do Caminho, um excelente guia do percurso.

APP Buen Camiño – Muito idêntica à anterior, mas sem o mapa.

 

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Sobre

Olá, somos a Carla, o Leonel, a Sofia, a Francisca, e adorámos partir à descoberta do mundo juntos!

Aqui, partilhámos os vários destinos que já visitamos, os hotéis onde ficamos hospedados e os restaurantes que experimentámos. Queremos inspirar quem nos visita, a viajar e a experimentar, pois consideramos que a vida é uma soma de experiências e uma constante procura. Nesta procura, buscamos locais, espaços, gastronomia, cultura, pessoas e, acima de tudo, a felicidade que é poder conhecer, valorizar e preservar o mundo maravilhoso que temos.

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