Há quem diga que o Dia dos Namorados é uma celebração do amor. Será?
“Quero um ramo de rosas vermelhas, o mais bonito que tiver” ou “faça um embrulho bonito com este perfume, ou ainda, “pode ser uma caixa de 14”, bombons, subentenda-se. Por esta altura, as floristas não têm mãos a medir e as lojas vendem quase tanto como no Natal.
Todos os anos, milhões de pessoas repetem o mesmo ritual coletivo, filas intermináveis para comprar chocolates, jantares românticos em restaurantes com preços altamente inflacionados, como pagar o dobro por um menu “especial” que é exatamente o mesmo de sempre, mas com um coração de papel ao lado, ao que se acrescenta uma lotação esgotada que, de romântico, não tem nada.
Casais sentam-se frente a frente, iluminados por velas e pela pressão social, tentando parecer apaixonados enquanto fazem contas mentais ao que vão ter de cortar no orçamento do mês. Mas não faz mal, o importante é tirar a foto do prato, porque se não foi para as redes sociais, não aconteceu.
E depois, ainda há o hotel, sim, porque noite do Dia dos Namorados é para ser passada naquele hotel que na semana anterior estava, precisamente, a metade do valor. Não importa, vale tudo para depois exibir no sítio do costume que se está a ter ou se teve o melhor Dia dos Namorados.
Como é interessante observar a coreografia social, casais a publicar declarações de amor tão profundas quanto uma poça de chuva, cuidadosamente editadas para parecer espontâneas. Relações que passam o ano inteiro a sobreviver por inércia, mas que no dia 14 de fevereiro renascem milagrosamente, ou pelo menos até ao fim do jantar.

De facto, existem datas que unem a humanidade: o Ano Novo, o Mundial de Futebol e, claro, o Dia dos Namorados, essa peregrinação global onde milhões de pessoas seguem religiosamente o mesmo roteiro turístico: comprar, postar, jantar, suspirar, repetir.
As redes sociais transformam-se, desta vez, numa passarela de declarações de amor tão profundas quanto um pires. Frases feitas, fotos cuidadosamente editadas, legendas que começam com “Ao meu amor…” e terminam com “para sempre”, mesmo que o “para sempre” dure até ao próximo desentendimento.
É fascinante observar como relações que passam o ano inteiro a sobreviver por teimosia ganham, no dia 14, uma vitalidade quase surpreendente. É o poder do marketing, nem o Cupido tem flechas tão eficazes.
Mas, sejamos honestos: talvez o amor moderno seja mesmo isto, uma mistura de boas intenções, consumismo criativo e uma pitada de desespero social. E está tudo bem. Afinal, se o amor é uma viagem, o Dia dos Namorados é apenas aquela excursão obrigatória que ninguém pediu, mas toda a gente faz. Com direito a fotos, lembranças e, claro, um ligeiro arrependimento no dia seguinte, porque no fundo, trata-se de uma peregrinação anual ao santuário do consumismo emocional.
Mas pronto, quem somos nós para julgar?




















