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Carla & Leonel

O ano acabou, a vida continua – Mais do mesmo todos os anos

As pessoas são, no mínimo, peculiares. Há muito que gostamos de observar o comportamento humano nas mais variadas dimensões. Entre tantas manias e, com o ano a chegar ao fim, as pessoas definem que é a altura ideal para fazer um apanhado/ reflexão detalhada sobre o que aconteceu ao longo do mesmo e sobre o que está para vir, desejando a todos um “Feliz Ano Novo”, “Paz”, “Saúde” e “Amor”, uma espécie de discurso à Miss Universo.

É nas redes socais, o lugar onde muitos viveram grande parte do seu tempo, que o pensamento ganha forma. O manuscrito acompanhado dos respetivos emojis, regra geral, segue o mesmo padrão. As pessoas começam por descrever os sucessos alcançados e as metas não atingidas e, está tudo bem, para de seguida, agradecerem. Gratidão é, sem dúvida, a palavra que melhor caracteriza este tipo de reflexão. Por último, atiram as expetativas para o ano que se segue e que, possivelmente, será o melhor de todos.

Uma espécie de inventário emocional feito à pressa, como quem tenta arrumar a mala cinco minutos antes da partida. De repente, todos se transformam em filósofos de Instagram/ Facebook, debitando frases profundas que encontraram num post motivacional de um qualquer ano.

E claro, não falta quem faça listas intermináveis de conquistas, algumas tão vagas que podiam ser de qualquer pessoa (“cresci muito”, “aprendi a valorizar o essencial”, “fiz muitas viagens”, “transformei-me”, “libertei-me do que me incomodava”, “consegui”, “estive presente”, blá, blá, blá). No fundo, é a época em que todos fingem que tiveram um rasgo narrativo digno de série da Netflix, quando na verdade passaram metade do ano a reclamar de alguma coisa e a outra metade a planear viagens que nunca fizeram.

E depois chega o momento mais esperado: o agradecer. Subitamente, todos se tornam monges, profundamente gratos por cada micro‑acontecimento do ano, desde “as aprendizagens difíceis”, também conhecidas como más decisões, até “as pessoas incríveis que apareceram no caminho”, no fundo por “tudo” o que conquistaram. É uma chuva de gratidão tão intensa que quase dá para acreditar que passaram doze meses num retiro espiritual. (In) felizmente um estado de alma que se cinge apenas ao ato de escrever o post que acompanha o vídeo com os melhores momentos ou o carrossel de fotografias, normalmente uma por mês.

É também nesta altura que as pessoas descobrem, com uma surpresa quase inesperada, que afinal não cumpriram metade das resoluções que anunciaram com pompa e circunstância em janeiro passado. Quem diria. O ginásio continua a ser um conceito abstrato, o curso de línguas ficou parado na lição “Olá, tudo bem?”, e a promessa de viajar mais resumiu‑se a duas escapadinhas ao mesmo sítio de sempre, mas com filtros diferentes no Instagram para parecer exótico.

Por último, há o clássico ritual de “limpar energias”, que vai desde queimar incenso comprado no supermercado, até fazer limpezas profundas no armário. Tudo isto acompanhado de um entusiasmo quase religioso, onde não podia faltar a crença mística de que “o melhor ainda está para vir”. É um clássico: basta virar o calendário e, de repente, todos acreditam que o universo vai finalmente alinhar‑se, como se tivesse estado distraído até agora, como se o simples virar da página do calendário tivesse poderes mágicos.

Surpresa: Nada de mágico acontece às 00:01 do Ano Novo. A realidade não reinicia porque o calendário virou, a realidade muda no momento em que o estado de consciência das pessoas muda e isto pode acontecer numa qualquer terça-feira comum às 15 horas. Mas pronto, deixemos que sonhem, alguém tem de manter viva a indústria dos planners e das frases motivacionais.

E é isto, o final do ano é uma espécie de auditório onde cada um sobe ao palco digital para apresentar o seu relatório anual cheio de gráficos imaginários, conquistas inflacionadas e uma boa dose de autoindulgência.

Daqui a uns meses estarão novamente a reclamar das mesmas coisas, a adiar os mesmos planos e a repetir o mesmo discurso motivacional como se fosse novidade. Mas não faz mal, é precisamente esta teimosia humana que mantém o espetáculo vivo. E nós, sinceramente, mal podemos esperar pelo próximo episódio desta série anual que ninguém admite ver, mas toda a gente protagoniza.

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Olá, somos a Carla, o Leonel, a Sofia, a Francisca, e adorámos partir à descoberta do mundo juntos!

Aqui, partilhámos os vários destinos que já visitamos, os hotéis onde ficamos hospedados e os restaurantes que experimentámos. Queremos inspirar quem nos visita, a viajar e a experimentar, pois consideramos que a vida é uma soma de experiências e uma constante procura. Nesta procura, buscamos locais, espaços, gastronomia, cultura, pessoas e, acima de tudo, a felicidade que é poder conhecer, valorizar e preservar o mundo maravilhoso que temos.

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