Quando escolhemos explorar Ovar, estávamos longe de imaginar que iriamos encontrar mais do que um território de emoções. O concelho apresenta um bom punhado de atrações encabeçados por uma doce folia que dança entre o paladar e a alma, onde o aroma a Pão-de-ló acabado de cozer se cruza com o riso contagiante do Carnaval.

Aqui, encontramos a fórmula perfeita para mergulhar num universo de pessoas, paisagens, gastronomia e património. Um labirinto de luz e cor, onde a brisa da ria se funde com o aroma da tradição e a história se escreve nas paredes que nos observam, onde o azulejo veste a cidade com uma pele de cerâmica que transforma cada fachada numa tela de poesia geométrica e num testemunho eterno da marca identitária de Ovar.

Gostamos de chegar na véspera para nos permitirmos ter um tempo só nosso, usufruindo por momentos, da sensação de “viver” nos sítios. O alojamento Villa Ria acolheu-nos à chegada e proporcionou-nos uma estadia rápida, mas suficiente para que a serenidade da ria se infiltrasse nos nossos sentidos, transformando um breve repouso num refúgio de paz, onde a hospitalidade se fez sentir e o balanço suave das águas nos sussurrou que, em Ovar, até os momentos mais fugazes têm profundidade.
Sábado. Manhã de um qualquer mês do ano. Mal despontou a alvorada, um burburinho apoderou-se progressivamente da pequena praça onde se localiza a Fonte de Neptuno. A cidade acordava, dando vida a um cenário onde os reflexos do Sol nas icónicas fachadas de azulejo despertavam as cores da cidade, enquanto o aroma a Pão-de-Ló de Ovar começava a perfumar o ar e os locais trocavam as primeiras saudações do dia.

O azulejo é uma marca identitária do património histórico, cultural e arquitetónico do concelho de Ovar, resultado de séculos de criatividade e inovação artística. Um passeio pelo empedrado das ruas para observação dos edifícios é uma verdadeira viagem ao passado. Hoje transpira uma magia deslumbrante, com as suas fachadas transformadas em mostruários de uma panóplia de padrões, composições e de ornamentos cerâmicos de remate, que acompanham correntes estéticas, revelam e transmitem gostos, crenças e ideais nacionais, ou contam histórias, divulgam territórios e são fontes de inspiração criativa.
Depois de uma lição pelas ruas da Cidade – Museu Vivo do Azulejo, estávamos junto à Escola de Artes e Ofícios para uma Experiência de Pintura em Azulejo, onde criamos a nossa própria peça recorrendo à técnica da estampilhagem.

A manhã já ia longa e pedia um reconfortante almoço na cafetaria do belíssimo Parque Ambiental do Buçaquinho. Com uma área de 24ha, o local resulta da revitalização de uma antiga ETAR, da paisagem envolvente e da potenciação da biodiversidade existente. Inaugurado em 2013 contempla um pinhal, seis lagoas, um parque infantil, jardim de plantas aromáticas, torre e postos de observação da avifauna, espaço multimédia e Centro de Educação Ambiental.

De novo na estrada, seguimos viagem. Era uma tarde daquelas em que o Sol iluminava o azul do oceano e as ondas chamavam por nós. Ovar destaca-se pela sua beleza natural e pelas condições ideais para a prática de surf. Os simpáticos monitores da Barrinha Surf School fizeram o seu trabalho e proporcionaram-nos uma experiência dinâmica e memorável em contacto com o Atlântico.

Os encantos nunca chegam a terminar em Ovar e, por isso, seguiu-se a Barrinha de Esmoriz, uma lagoa costeira única na região, rica em biodiversidade e integrada na Rede Natura 2000. Com o apoio da BeCycle, deslumbramo-nos durante um passeio de 8km pelo passadiço requalificado, desfrutando da natureza e das aves locais.

Final de dia. O céu cedeu ao espetáculo de um pôr do sol. A água que acaricia a costa resplandece com uma tonalidade viva de laranja. À nossa frente, as ondas sucedem‑se em camadas de espuma branca, umas atrás das outras, esbatendo‑se no molhe, envolvendo-o.

À medida que escurece, o rebuliço de pessoas entrega-se à noite que tomou conta do céu. As luzes refletem-se disformes no chão. Vagueando pelas ruas de Furadouro, chegamos ao restaurante O Tasco, conduzidos pelo cheiro inconfundível de peixe grelhado, oferecido pela brisa marítima que se intensificou pelo avançar da madrugada.

Resguardamo-nos no hotel, acolhedor e quente, e em silêncio, cobrimo-nos para dormir, lembrando-nos de tudo. Pensamos no que vimos e vivemos — doce, alegre, ora agitado, ora calmo— e adormecemos à escuta desse todo. Lá fora, o vento continuava a soprar.
Manhã seguinte. Um céu enevoado, acolhia-nos para mais um dia à descoberta de tão bela região. Numa mão-cheia de motivos para conhecer Ovar, cabe também uma colorida igreja e um museu, numa terra que se orgulha da sua ruralidade.

Localizada em Válega, a Igreja Matriz começou a ser construída em 1746, tendo sido concluída um século mais tarde. A sua peculiaridade reside na sua frontaria, a qual se encontra completamente revestida a azulejos policromáticos da Fábrica Aleluia colocados em 1960. O Museu Escolar Oliveira Lopes, inaugurado em 2019, preserva e divulga o legado da Escola Primária Oliveira Lopes e dos seus beneméritos, reunindo mobiliário, material didático e objetos usados desde 1910.

Algumas nuvens mais escuras continuavam a cobrir boa parte do céu. Ainda assim, o clima ideal para fazer um passeio de Stand Up Paddle com RedAnimal Surf School, num percurso pelas águas calmas da Ria de Aveiro imersos num cenário natural no seu estado mais autêntico. Estavam dezassete graus. Por entre explicações e tentativas, hesitamos, enquadramos, e ajustamos o equilíbrio corporal em cima da prancha. Analisamos. Talvez fosse o momento de seguir. Aqui, o silêncio não é ausência de som, mas uma espécie de moldura. O vento percorre a ria, toca na vegetação, nas pedras e na água. E como gostamos de rios e de rias, e dos mistérios que guardam nas margens verdejantes.

Hora de almoço. Aquela pausa estratégica para apreciar e degustar a gastronomia local. O restaurante Pote cumpriu os desígnios e foi o espaço ideal para nos encontrarmos com o que de melhor há por aqui no que à comida diz respeito.

Antes de nos encaminharmos para o final da visita, valeu a pena ainda parar na Rua Cândido dos Reis, na Gaby – Pastelaria de Autor, para saborear o tão afamado Pão-de-ló de Ovar e conhecer o processo de confeção deste afamado doce que apresenta o formato de uma broa, com massa leve e fofa e uma finíssima côdea húmida na parte superior (o “ló”) rodeada por uma orla de massa cremosa amarelo-ovo, com aroma característico. Tradicionalmente embalado em papel “almaço”, o Pão-de-Ló de Ovar é um dos principais cartões-de-visita da doçaria tradicional portuguesa.

Com o ânimo retemperado pelo doce, valeu a pena percorrer uma última vez as ruelas de Ovar, observando a azulejaria das fachadas que tanto nos cativou, até porque urge desgastar o doce.
Mas há mais, muito mais: há que mergulhar no mapa, perdermo-nos por uma qualquer estrada. Há todo um concelho vestido de uma paisagem rural, oceânica, de florestas, baías com aldeias de pescadores e falésias com faróis que desafiam o Oceano Atlântico.
Quisemos desembrulhar as coisas boas de Ovar, um território de emoções, e provocar em quem nos lê, vontade de partir à descoberta.

Fica o convite!




















