Dezembro de 2025. Chegar a Marrocos foi como abrir a porta para um mundo que nos despertou os sentidos. Assim que o avião aterrou, o ar húmido e frio do inverno envolveu-nos como um abraço inesperado. Há sete anos que não nevava com tanta intensidade na cordilheira do Atlas. Também chovia, o que é rara por estas bandas.
Aqui, as cores parecem mais intensas, os sons mais vivos, e há uma energia vibrante, quase inexplicável, que percorre as ruas, desde o caos organizado de Marraquexe até ao silêncio profundo do deserto de Merzouga.

Foi impossível não sentir que estávamos prestes a viver algo especial. As medinas labirínticas convidaram-nos a perdermo-nos, os mercados chamaram-nos com os aromas de açafrão e hortelã fresca, e as montanhas do Atlas erguiam-se como guardiãs de um país onde a tradição e a modernidade convivem lado a lado.
Cada quilómetro que percorremos revelou um novo cenário, cada rosto contou uma história, e cada chá de menta servido com generosidade lembrou-nos que neste país o tempo corre de outra forma.

Este roteiro de 4 dias em Marrocos mergulhou no coração do país. Atravessámos montanhas, explorámos kasbahs ancestrais, descobrimos aldeias berberes e, claro, sentimos a magia do Sahara ao nascer do Sol. Uma viagem curta, mas intensa que, como sempre, nos transformou.
Dia 0 – Chegada a Marraquexe
Eram 18h30 quando aterrámos no Aeroporto de Marrakech‑Menara. O primeiro impacto é sempre o de admiração e necessidade imediata de sentir o cheiro de um país novo.

Depois das formalidades normais de um aeroporto, dirigimo-nos à Rent-a-car Budget para levantar o carro previamente reservado pela plataforma Discover Cars.
Com a hora de jantar a aproximar-se, fomos confortar o nosso estômago. Queríamos algo rápido para não perder muito tempo, pois tínhamos como objetivo dormir cedo.
Alguns minutos depois, chegámos ao nosso alojamento, o Riad L´Aeroport, situado nas imediações do aeroporto onde nos instalámos confortavelmente para um a noite “rápida”.

Informação Útil
Voo: Ryanair desde Lisboa – 57€/ pessoa.
Rent-a-car: Discovers (Budget) – 100€/ 4 dias com cobertura total.
Alojamento: Riad L´Aeroport (Marraquexe) – 67€/ 4 pessoas, alojamento e PA.
Dia 1 – Viagem de Marraquexe a Merzouga
O primeiro dia foi passado, essencialmente, na estrada numa viagem de quase 12 horas entre Marraquexe e Merzouga, via N8 e N29, N13 e N17.

A ideia original era ir pela estrada que passa por Ouarzazate, ou seja, o itinerário principal, mas como tinha nevado intensamente no Atlas, esta encontrava-se encerrada, o que nos obrigou a refazer o plano de viagem. Nada que nos assuste, pois como viajamos sempre com a agenda em aberto, facilmente nos adaptamos à realidade que temos à nossa frente.

Assim, saímos de Marraquexe por volta das cinco da manhã quando a noite ainda pairava sobre as nossas cabeças e começamos aquela que foi uma das viagens mais impactantes até ao momento para nós adultos, mas sobretudo, para as nossas filhas.
Às sete horas, os primeiros raios matinais começaram a invadir os nossos sentidos e, com isso, as primeiras paisagens entraram-nos pelos olhos. As cores fortes em tons ocres e as aldeias isoladas aqui e ali acompanharam-nos durante bastante tempo até emergirmos num branco imenso que nos ofuscava.

Passámos por El Kelaa des Sraghna, Beni Mellal, Midelt, Errachidia, Arfoud até que, finalmente, chegámos à região de Merzouga, quando a noite era já uma realidade. Estávamos muito entusiasmados com a ideia de pernoitar em pleno deserto sob o manto de estrelas que, entretanto, era visível no céu. À hora combinada, o acolhedor Omar estava à nossa espera para nos transportar de jipe pelas dunas até ao luxuoso acampamento que dá pelo nome de Sahara Happy Camp Luxury, o lugar ideal para comemorar 50 anos de vida.

Ficar aqui foi, sem dívida, mergulhar no silêncio infinito do deserto, uma experiência diferente, marcante. Entre estrelas que pareciam estar ao alcance das nossas mãos, descobrimos a magia de abrandar e, simplesmente, existir. Uma noite e um momento especial, num acampamento de luxo onde o verdadeiro luxo foi sentir a imensidão, a paz e a beleza de estar aqui, juntos, no meio de tudo e de nada ao mesmo tempo.

Depois de nos instalarmos nas nossas tendas, cuidadosamente preparadas para nos receber, fomos jantar. À nossa espera, já se encontrava a mesa posta com algumas iguarias tipicamente marroquinas, o primeiro contacto com a gastronomia local. Os pratos foram chegando um a um e, no final, o tão aguardo bolo de aniversário com as respetivas velas para assinalar a chegada de mais um ano de vida.
Nunca conseguiremos colocar por palavras as emoções que vivemos neste lugar.
Informação Útil
Alojamento: Sahara Happy Camp Luxury (Merzouga) – 180€/ 4 pessoas, alojamento, jantar, PA e passeio de jipe e dromedário nas dunas.
Dia 2 – Merzouga a Ouarzazate
No deserto, o dia começa cedo. Os primeiros raios de Sol inundavam a nossa tenda. Ao amanhecer, as dunas ganham tons rosados, ao entardecer, transformam-se em ouro líquido. É um espetáculo natural que muda todos os dias e que dificilmente se esquece.

Era a primeira vez que avistávamos as tão aguardadas dunas. Estávamos maravilhados com a pacatez do local e com a beleza estonteante que nos preenchia o olhar. Entretanto, sentimos o cheirinho a café, sinal de que o pequeno almoço começara a ser servido. Na enorme mesa com atoalhados de cor laranja forte, esperava-nos uma mesa farta com as mais diversas iguarias. Depois de um pequeno almoço reconfortante, foi tempo de nos despedirmos dos simpáticos funcionários e do acampamento que nos acolheu para uma experiência memorável.
Próximo daqui, os afáveis dromedários já se encontravam à nossa espera para nos levar duna acima, duna abaixo, num passeio surpreendente no seio de uma paisagem sem igual.

Esta é uma das experiências para fazer pelo menos uma vez na vida. Cruzar o deserto no ritmo tranquilo deste animal é perpetuar a memória do silêncio profundo, é contemplar as dunas que mudam de cor a cada passo, é absorver a imensidão que preenche a alma.

De novo, no nosso carro, seguimos em direção a Merzouga, uma pequena vila no sudeste de Marrocos, às portas das dunas monumentais de Erg Chebbi, onde o silêncio do deserto se mistura com a hospitalidade berbere e com um céu estrelado que parece não ter fim. É aqui que o Sahara se revela na sua forma mais cinematográfica e é por isso que Merzouga é um dos destinos mais fascinantes do país.

O grande protagonista de Merzouga é, de facto, o Erg Chebbi, um mar de dunas douradas que pode atingir 150 metros de altura. A proximidade da vila ao deserto é um privilégio raro, basta caminhar alguns minutos para estarmos rodeados por areia fina e silêncio absoluto.
A travessia pelas areias douradas, uma visita às aldeias berberes e a magia de dormir num acampamento no meio do Sahara, permite descobrir que o deserto não é apenas um lugar, mas uma sensação. Uma pausa. Um reencontro com o essencial.

Com esta memória no coração, continuámos a nossa viagem rumo a Ouarzazate com várias paragens ao longo do trajeto para conhecer algumas localidades, como Rissani, uma pequena cidade, considerada a porta de entrada para o deserto do Sahara e um dos berços históricos da dinastia alauita que mantém um ambiente autêntico, marcado pelos seus mercados tradicionais, caravançarais antigos e pela arquitetura em adobe típica das regiões oásis. O seu souk é um dos mais vibrantes do sul marroquino, especialmente nos dias de mercado, quando pastores, artesãos e comerciantes das aldeias vizinhas se reúnem para trocar produtos.

Seguiu-se Tinghir, uma cidade-oásis, conhecida pelo impressionante vale verdejante que acompanha o Rio Todra e contrasta com as montanhas áridas do Alto Atlas. A poucos quilómetros encontram‑se as famosas Gargantas do Todra, um desfiladeiro profundo com paredes de rocha que chegam a mais de 300 metros de altura, muito procurado por caminhantes e escaladores. A cidade preserva uma medina tradicional, kasbahs em adobe e uma forte herança berbere, visível na arquitetura, na música e no artesanato local.

A viagem continuou no seio de paisagens inóspitas junto ao Rio Dadès até chegarmos a Ouarzazate, muitas vezes chamada de “porta do deserto”, uma cidade marroquina situada entre o Alto Atlas e as vastas planícies que conduzem ao Sahara.

A noite foi passada num simpático riad com vista para o vasto palmeiral junto à cidade.
Informação Útil
Quando Visitar Merzouga:
- Março a maio – as temperaturas são mais equilibradas e as noites agradáveis.
- Setembro a novembro – as temperaturas são mais equilibradas e as noites agradáveis.
- Verão (junho–agosto) – pode ultrapassar os 45 °C.
- Inverno profundo – noites muito frias, embora os dias sejam agradáveis.
Dicas Práticas:
- Levar roupa quente para a noite, mesmo no verão.
- Protetor solar e lenço para o vento são essenciais.
- Levar dinheiro vivo — há poucos multibancos.
- Pedir permissão antes de fotografar pessoas.
- O nascer do sol é tão bonito quanto o pôr do sol, e com menos gente.
Alojamento: Riad Boutique & Chay (Ouarzazate) – 92€/ 4 pessoas, alojamento e PA.

Dia 3 – Ouarzazate a Marraquexe
Conhecida pela sua luz intensa e paisagens áridas, Ouarzazate tornou‑se um dos principais centros cinematográficos de Marrocos, acolhendo estúdios onde foram filmadas produções internacionais.

A cidade destaca‑se também pela impressionante Kasbah Taourirt, um exemplo notável de arquitetura em adobe que testemunha a importância histórica da região como ponto estratégico nas rotas caravaneiras. Ouarzazate combina património cultural, cenários naturais marcantes e uma atmosfera tranquila, sendo um ponto de partida privilegiado para explorar o deserto e os vales circundantes.
O dia começou com uma visita ao Atlas Sudios, uma atração imperdível por estas bandas, principalmente, para os apreciadores da Sétima Arte, com direito a uma pequena prestação cinematográfica no final da visita guiada.

O Atlas Studios é um dos maiores complexos cinematográficos do mundo e o mais emblemático de Marrocos, conhecido pelos seus vastos cenários ao ar livre que recriam desertos bíblicos, cidades antigas e paisagens épicas. Fundado nos anos 80, tornou‑se palco de inúmeras produções internacionais, desde filmes históricos a superproduções de Hollywood, graças à luminosidade intensa da região e à diversidade natural das paisagens circundantes. Nos seus estúdios é possível encontrar cenários completos — templos egípcios, fortalezas, aldeias inteiras — que permanecem após as filmagens e podem ser visitados, tornando o local um ponto de interesse cultural e turístico. O Atlas Studios simboliza a ligação entre Marrocos e a indústria cinematográfica global, sendo um dos motores culturais e económicos da região de Ouarzazate.

De regresso à estrada, a paragem que se seguiu foi Aït‑Ben‑Haddou, um dos ksars mais emblemáticos de Marrocos, situado na antiga rota das caravanas que ligava o Sahara a Marraquexe.
Classificado como Património Mundial da UNESCO, este conjunto fortificado de casas em adobe destaca‑se pela sua arquitetura tradicional do sul marroquino, com torres decoradas e muralhas que parecem emergir da paisagem árida. O local mantém uma atmosfera intemporal, com vielas estreitas, passagens elevadas e vistas amplas sobre o vale do Ounila. Além do seu valor histórico e cultural, Aït‑Ben‑Haddou ganhou notoriedade internacional por servir de cenário a inúmeros filmes e séries, tornando‑se um dos destinos mais fascinantes e fotogénicos do país.


Com a montanha do Atlas no horizonte, regressamos à viagem para conhecer uma das cadeias montanhosas mais marcantes do Norte de África que, nesta época, se encontrava coberta por um gigante manto branco.

A cordilheira separa as regiões costeiras atlânticas e mediterrânicas das vastas planícies que conduzem ao deserto do Sahara. Com picos que ultrapassam os 4 000 metros — incluindo o Jebel Toubkal, o ponto mais alto do país — o Atlas apresenta uma enorme diversidade de paisagens, desde vales férteis e aldeias berberes em terraços até planaltos áridos e desfiladeiros profundos. A região é também um importante espaço cultural, onde comunidades berberes preservam tradições ancestrais, arquitetura em adobe e modos de vida adaptados ao clima montanhoso.

O destino final deste dia magnífico foi Marraquexe, uma das cidades mais vibrantes e emblemáticas de Marrocos, conhecida pela sua mistura única de tradição e modernidade, um lugar quase surreal, caótico e repleto de movimento. Confessámos, que foi preciso algum tempo para assimilarmos e processarmos tudo o que os nossos sentidos absorviam.
Com a noite instalada, fomos conhecer a vibrante Praça Jemaa el‑Fna, um palco vivo onde se misturam vendedores, músicos, artesãos, contadores de histórias e aromas intensos das bancas de comida — um verdadeiro espetáculo cultural ao ar livre.


Perante uma panóplia de riads no interior da medina, escolhemos um bonito e elegante riad com uma localização excelente, muito próximo da grande praça.
Informação Útil
Atlas Studios: 32€/ 4 pessoas com Guia.
Alojamento: Riad Villa Wengue (Marraquexe) – 212€/ 4 pessoas, alojamento e PA.


Dia 4 – Marraquexe
Marraquexe é uma das cidades mais marcantes de Marrocos, um lugar onde a energia vibrante do presente convive com séculos de história e tradição.
O som oriundo da mesquita ditou o nosso acordar. Os sons e os cheiros vindos do exterior chamaram por nós. De volta à Praça Jemaa el‑Fna, agora para um registo diurno, parámos, mais uma vez, para contemplar esta magia nunca antes vista. Os sumos naturais e a comida de rua são qualquer coisa, portanto, uma experiência a não perder.


A poucos passos daqui a medina revelou um labirinto de souks repletos de especiarias, tecidos, cerâmica, couro e metais trabalhados, refletindo o talento artesanal marroquino. Uma perdição para quem gosta de compras internacionais. Aqui, há de tudo quanto se possa imaginar.

Com o tempo a escassear, houve ainda tempo para conhecermos as atrações mais emblemáticas de Marraquexe, como Mesquita Koutoubia, com o seu minarete imponente que domina a paisagem urbana, o Palácio da Bahia, com os seus pátios ornamentados e detalhes arquitetónicos deslumbrantes, e a Madraça Ben Youssef, um dos mais notáveis edifícios históricos de Marraquexe, famosa pela sua arquitetura islâmica requintada e pelos intricados detalhes em madeira, estuque e azulejo que revelam a grandiosidade do antigo centro de estudos corânicos.


Antes da partida, fomos ainda conhecer os Jardins Majorelle, um oásis artístico criado pelo pintor Jacques Majorelle e mais tarde restaurado por Yves Saint Laurent.

Marraquexe é isto e muito mais. Todas as palavras são poucas para descrever a cidade, mas, no fundo, trata-se de uma experiência sensorial completa, um encontro entre cores, sons, sabores e tradições que permanecerá para sempre na nossa memória como uma das viagens mais especiais que já fizemos.
Informação Útil
Palácio da Bahia: 40€/ 4 pessoas
Madraça Ben Youssef: 20€/ 4 pessoas
Jardins Majorelle: 68€/ 4 pessoas
Outros Gastos
Voos: 231€/ 4 pessoas (Ryanair desde Lisboa).
Rent-a-Car: 100€/ 3 dias com seguro total (Discovers – Budget).




















