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Carla & Leonel

Termas, Vapor e Conversas que Ninguém Pediu

 “Não pedimos para ouvir isto, mas já que estamos aqui…”.  Entre vapores quentes e gargalhadas que ensurdecem, as palavras borbulham como as águas que brotam do jacuzzi, numa das “poças” que fazem deste complexo termal, um dos mais concorridos do nosso país.

Há quem venha às termas ao ar livre para relaxar, há quem venha para curar maleitas, e depois há os verdadeiros protagonistas, os conversadores compulsivos, esses seres que acreditam que a água quente amplifica a profundidade das suas reflexões.

Nós, que só queríamos ficar em silêncio a dissolver preocupações e a contemplar os raios de Sol tímidos, típicos de um dia de fevereiro à tarde, acabamos invariavelmente a assistir ao teatro humano que emerge entre fumarolas.

Nunca falta o especialista autoproclamado que mede a vida em graus Celsius. “Isto hoje está a 36º, mas pode chegar aos 40º.” Diz isto com a solenidade de quem anuncia o facto com conhecimento de causa. A companheira acena, resignada, como quem já ouviu esta análise térmica aplicada a tudo: sopas, duches, relações.

“Este espaço está tão bonito, isto é fantástico.” “Está aqui uma coisa bem pensada.” Há espaços que não se sentem, descrevem-se. Este é um deles.

Depois, há sempre a dupla que discute logística como se fosse geopolítica. “Se tivéssemos vindo dez minutos mais cedo, apanhávamos o poço do canto. Mas tu demoras sempre a preparar-te.” E ali ficam, a debater chinelos, horários e estratégias de ocupação de território, enquanto a água borbulha à volta, talvez a tentar abafar o conflito. Não conseguem.

As famílias, um habitué nestes espaços, comentam tudo… menos o que interessa. “Olha aquela pedra, parece um coelho. “ “Aquele senhor, parece o meu primo.” “Aquela nuvem, parece um croissant.” A conversa é um catálogo de comparações improváveis, como se estivessem a treinar para um concurso de metáforas aleatórias.

As banalidades do dia a dia também fazem parte do reportório. Estão a relaxar, o momento ideal para organizar a vida e a semana. “Temos de fazer isto mais vezes, não é tão bom?”, subentenda-se, têm de ir com mais frequência às termas, afinal a saúde agradece. “Amanhã, tenho de ir buscar as portas e os parafusos.” O corpo abranda, mas a mente fervilha, um microclima mental onde o vapor nunca assenta.

Tentamos fechar os olhos, respirar fundo, deixar que o calor da água nos envolva. Mas o universo das termas tem regras próprias, o silêncio é um mito, uma lenda urbana, uma utopia aquática.

No fim, saímos das termas mais leves, não pela água, mas porque percebemos que há algo de reconfortante neste caos humano. As conversas são absurdas, repetitivas, involuntariamente cómicas, mas são também a prova de que, mesmo rodeados de natureza, não conseguimos desligar o botão da socialização.

Vamos às termas à procura de silêncio, mas acabamos a encontrar humanidade em estado bruto, e é isso que, paradoxalmente, nos alivia. Percebemos que há algo de estranhamente revigorante neste caos humano que se instala entre vapores.

A leveza vem do reconhecimento de que não estamos sozinhos nas nossas manias, nas nossas obsessões, nos nossos comentários deslocados. Há sempre alguém a falar mais alto, a repetir histórias, a discutir inutilidades com convicção quase terapêutica.

Num local onde teoricamente deveríamos desligar, percebemos que o ser humano é incapaz de resistir ao impulso de comentar, opinar, narrar. É como se a água quente libertasse não só tensões musculares, mas também a necessidade urgente de dizer qualquer coisa, mesmo que seja sobre a temperatura da água ou o formato de uma pedra.

No fundo, são diálogos que ninguém pediu, mas que todos acabam por partilhar.

Quem somos nós para criticar.

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Sobre

Olá, somos a Carla, o Leonel, a Sofia, a Francisca, e adorámos partir à descoberta do mundo juntos!

Aqui, partilhámos os vários destinos que já visitamos, os hotéis onde ficamos hospedados e os restaurantes que experimentámos. Queremos inspirar quem nos visita, a viajar e a experimentar, pois consideramos que a vida é uma soma de experiências e uma constante procura. Nesta procura, buscamos locais, espaços, gastronomia, cultura, pessoas e, acima de tudo, a felicidade que é poder conhecer, valorizar e preservar o mundo maravilhoso que temos.

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